Desde os meus tempos de faculdade – e claramente muito tempo antes disso, uma vez que não fazem 10 anos que passei no vestibular – que uma pergunta vem rondando todos aqueles que, por ventura, se interessam por design: afinal, o designer é um artista? A maioria pensaria que sim, e até certo ponto não estariam errados; afinal, para ser aprovado no vestibular das principais faculdades há uma prova de habilidade específica, onde o canditado deve expressar seus conhecimentos e habilidades para manusear, dobrar, picotar e colar papéis, e até desenhar modelos tridimensionais. Boa parte dos candidatos aí é eliminada (o que não os impede, porém, de ingressar em algumas faculdades, como a PUC-RJ, onde esta prova é realizada posteriormente às provas tradicionais do vestibular e caso o canditado não tenha passado, lhe é oferecido um curso relâmpago de aprimoramento para então ser testado novamente).
Outros pensariam, num mundo moderno, onde o computador tomou o lugar da prancheta numa velocidade impressionante, em que a habilidade manual estaria implicada? Na desenvoltura como se segura o mouse? Certamente não. O que não podemos esquecer é que o computador, assim como um martelo para um marceneiro, é apenas uma ferramenta – uma excelente ferramenta, diga-se de passagem – com que o designer vai colocar em prática todo o seu conhecimento, adquirido através de anos de estudo. Poderíamos dizer que a tela do monitor e o mouse estariam para o designer moderno assim como o bloco de papel e o lápis estavam para os designers de vinte anos atrás. O que se vê é um espaço em branco a ser preenchido, e não simplesmente preenchido aleatoriamente ou sob forte inspiração, assim como um pintor faria diante de uma tela em branco. É preciso muito mais do que inspiração para um design acontecer; é preciso estudo, análise do problema e sobretudo metodologia, sem a qual um trabalho é feito aleatoriamente, muitas vezes perdendo-se durante as etapas da criação.
Talvez, então, seja essa a diferença entre o artista e o designer, seja ele de produto ou gráfico: o uso de uma metodologia, ou seja, a aplicação de uma “fórmula” conhecida para que uma idéia se desenvolva a partir de um pedaço de papel ou tela de monitor em branco.
Mas, alguns diriam, o artista experiente também não desenvolveria uma técnica ou uma fórmula que lhe garantisse que sua arte fosse seguir um padrão que lhe garantisse uma obra, não perfeita, mas adequada àquela sua idéia inicial, àquela que o fez levantar-se um dia e querer exprimir na tela ou na madeira ou no mármore um sentimento, uma inspiração? Até pode ser, mas a diferença crucial entre um artista e um designer seria exatamente essa, a não necessidade de uma metodologia, uma vez que seu trabalho é 99% movido a inspiração e habilidade com suas ferramentas.
No caso do designer, essa porcentagem poderia ser exatamente o inverso, reservando apenas 1% para inspiração. A ele é apresentado um problema, e dele deve sair uma solução. E para isso ele precisa lançar mão de uma metodologia, seja ela qual for, e através dela estudar as soluções possíveis para aquele problema e, enfim, apresentar uma que se possa usar definitivamente, ou até que ele mesmo ou outro designer apresente outra solução mais adequada. Obviamente não podemos deixar de lado o fato de que o designer sim deve ter amplos conhecimentos de história da arte, de aplicação de cor, de estética, de percepção visual e, inclusive, bom gosto.
Concluindo: o designer pode ser um artista, e até sob certos aspectos o é, mas nem sempre a recíproca é verdadeira.
Deixo aqui então uma pergunta para essa discussão que notoriamente está longe de ter um fim: seria hoje Leonardo da Vinci, artista e inventor, um designer?
© 2007 - RAFAEL POGGI