RAFAEL POGGI apresenta: Design + letras

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E você, onde se vê daqui a cinco anos?

Vejam essa situação:

executiva gata, aquela que você pensa que é toda fria porque se veste com terninho, usa cabelo preso, mas por baixo de tudo usa uma lingerie hiper ultra sensual e na cama deve ser um furacão (uma das N fantasias sexual do universo masculino); um yuppizinho com a cara do Ben Stiler (mais novo) formado na PUC e recém saído da pós da FGV. Ambos almoçando com o chefe num restaurante chique do centro do RJ (ou de SP... whatever). Ai ela pergunta com cara de safada para o cara: "onde você se vê daqui a cinco anos?". O cara olha para o nada, franze a sobrancelha de Ben Stiler. Entra o clássico do Rock: TCHA, TCHA-NA-NAM, TCHA-NA-NAM, TCHA-NA-NA-NA-NAAAAAAAAM! O yuppizinho ao volante de um possante FORD FUISON com a executiva gostosa do lado. A cena volta e ele pergunta a ela: "E você? onde se vê daqui a cinco anos"?.  Entra de novo o clássico do Rock: TCHA, TCHA-NA-NAM, TCHA-NA-NAM, TCHA-NA-NA-NA-NAAAAAAAAM! O yuppizinho ao volante, mas a gostosa vai atrás, lendo seu jornal! Entra o slogan: "QUEM DIRIGE O FORD FUSION, FEZ POR MERECER. (ou algo assim, whatever total).

AGORA SOBE AI UM BARULHO DE UMA FREADA VIOLENTÍSSIMA!!!

Puts! O cara hoje se vê daqui a CINCO ANOS, dirigindo um NOVÍSSIMO FORD FUSION... 2009!!! Modesto o rapaz, né? E a dondoca??? Se imagina chefe e tem um novíssimo FORD FUSION... 2009!!!! E com o yuppie como motorista!!! O cara foi rebaixado!

Espera aí então: na primeira opção o cara fez por merecer dirigir um Ford Fusion velho? E na segunda opção ele se ferrou tanto na vida que no máximo virou motorista da dondoca... num Ford Fusion velho???

Bem, se você chegou até aqui na leitura e pensa como eu, percebeu que essa campanha é um tiro no pé do anunciante. Vejam bem que eu adoraria ter um carro 2004, mas num universo como o proposto pelo anúncio, certamente o cara e a dondoca poderiam almejar um carro do ano, não é não? O que me leva a pergunta: como deixaram a campanha ir ao ar? Como foi aprovada pelo cliente? Muito provavelmente o cliente deu TODOS os pitacos possíveis - inclusive da música - na campanha e o publicitário (e o diretor de arte) colocaram seu precisoso din-din no bolso - e o orgulho na cueca - e cederam aos caprichos do cliente.

Não é assim muitas vezes conosco, profissionais de design? A ilusão de que sairemos da faculdade e estaremos munidos com todas as armas, todos os argumentos, para convencer o cliente e vender-lhe nosso peixe é vigente; se o cara não se convencer, damos boa tarde e partimos para o próximo, sem dinheiro para o ônibus, mas com a certeza de que fizemos nosso trabalho e um bem a sociedade como um todo.

Isso tudo seria ideal... mas no mundo de Bob. Mais do que competência para convencer o cliente de que um layout é mais apropriado do que o outro, é preciso sorte. Se não, engolimos nosso orgulho e fazemos o que o cara quer; afinal, ele está pagando! E não há nada errado nisso! Se o cara quer que o fundo do site seja rosa e a fonte amarela... problema dele. Mais vale o din din no bolso do que atrasar a mensalidade da escola dos filhos – ou a prestação do novo Ford Fusion.

 

PS: tudo o que eu escrevi foi pura e simples especulação. A idéia do comercial pode muito bem sim ter vindo da cabeça do publicitário e aprovada pelo cliente. O que nos leva a outra discussão: idéias boas no papel, mas que na prática podem ser um tiro pela culatra. Mas isso é uma outra história para outro por-do-sol...

publicado em 10/07/2009

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